A vida era muito dura. Mas para o pequeno sonho dele a vida era quase impossível. Não existiam flores, ou neve, nem folhas rolavam embaraçosas pelo chão para alegrar, ou até mesmo o calor infernal de verão não conseguia sequer atormentar o doce sonho dele. Nada chegaria tão perto, nem poderia se refugiar em seu cantinho, nem ousar tocar nas palavras isoladamente colocadas e captadas para aquela tão admirável vida. No último final de semana ele saiu com alguém, conversou, beijou mas tinha voltado intocável, extremamente idêntico à maneira que havia saído, intocável. Ele não permitia intrusos ou pessoas que estivessem ali de passagem, que trancassem aquela porta dura e carregasse consigo a chave dos mistérios que dali saiam. Ele não permitia sequer seu próprio coração de experimentar a tão aplausível doçura da vida. Era somente aquilo. Preso. Preso em si mesmo. Sem liberdade. Não, não para sair por aí "espancando as coisas", liberdade para se libertar da tão profunda tristeza colocada no lugar de sentimentos, liberdade para tocar no sol irradiante e não queimar-se, liberdade para observar rostos sem ao menos criticá-los. Somente liberdade. Talvez disso, todos nós precisemos um pouco.
Quézia Estéfani.

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