Alcancei um de meus porta-retratos e de longe avistei uma garotinha estranha escondida na multidão. Usava óculos de grau, moletons folgados e nenhum amigo seu estava por perto. Ao seu redor, as crianças brincavam de pega-pega e esconde-esconde. Não me recordo de alguém sentando ao seu lado e perguntando se queria brincar de se esconder também. Mesmo não estando em uma brincadeira, ela sabia muito bem esconder-se dentro de sí mesma.
Em outras fotos, durante as aulas, pude notar a mesma garota esquisita na ultima carteira do lugar. Isolada de todas as outras crianças. A professora, que constantemente vivia esquecendo seu nome, não deve se lembrar mais de quem era aquele ser diferente. Recordo-me de vê-la levantando apenas uma vez naquele ano para jogar um pequeno papel amassado de rascunhos no lixo, e logo depois, de arrepender-se e pegar o mesmo papel, enquanto, seus coleguinhas de turma achavam nojento. E então, mais uma vez ela sentava em sua cadeira para tornar-se invisível.
Daquela turma, ninguém se lembra mais dos passos pacatos daquela menina ou, dos sorrisos discretos que aconteciam, diariamente, quando olhava para o garoto sentado a sua frente. Sorria sobre os braços escondendo as pequenas covinhas que se formavam em suas bochechas.
Mas eu me recordo como se fosse hoje… Que ao chegar em casa, eu chorava por me esconder diante da multidão e ser como sou. Aquela menina de outro mundo, que sorria escondida e que usava óculos de grau, era eu. Algumas de suas coisas ainda levo comigo, outras, preferi esquecer.
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